A CRUELDADE DAS TOURADAS
Observando as touradas pela televisão, busquei uma explicação para a crueldade humana. Descobri que a crueldade
é epidêmica; as multidões rapidamente se contaminam e, como todos estão doentes, ninguém se acha doente. A
galera, anestesiada pela convicção de cada um de que ninguém ali é mau, olha para a arena ainda vazia e espera
pelo espetáculo de trucidamento.
O touro, naquele contexto o único ser de verdadeira inocência e certamente o único, mesmo, a não afrontar a severa
vontade de Deus, irrompe na arena. E ninguém torce por ele.
O toureiro e os bandarilheiros se apresentam para o massacre. Aquele, de duvidosa elegância em seus borzeguins
e roupa justa, recebe da galera frenéticos aplausos.
Os bandarilheiros inauguram o suplício. A cada bandarilha cravada no pescoço do animal, mais sangue jorra. É a vida
que se escoa sem proveito e sob tortura.
Na defesa instintiva de si próprio, o touro investe contra a capa que o toureiro, herói e deus daquele altar pagão, lhe
agita. Uma, duas, três e mais vezes, até que, exangue, já nem tem como andar na direção dela.
Em delírio, a galera aguarda pelo ato final. Por aquela estocada derradeira que o seu deus e herói dará e que, lá na
consciência coletiva da galera, dos bandarilheiros e do toureiro, confundir-se-á com um gesto de misericórdia. E isto
bastará para que todos se sintam em paz.
Na vida, como nas touradas, há os que se sentem redimidos dos seus erros quando se desconectam da realidade.
Pertencer a uma multidão de qualquer propósito é sempre um risco de acumular erros sem resgate e culpas sem
perdão.
Não se iluda com as grandes platéias, com a presença maciça de público num lugar determinado. A razão se deforma
pela vibração das turbas.
Se houvesse apenas um espectador na praça de touros, esse por certo investiria contra o toureiro e seus auxiliares.
O aprimoramento, a verdade e Deus a gente só encontra na solidão do nosso Eu profundo. É ali que estão os fundamentos
da nossa humanidade e as sementes da alegria saudável; aquela que a gente só vem a sentir quando executa
concretamente as tarefas positivas que existem na Terra, a começar pelas que nos esperam na nossa casa.
Joel Ribeiro do Prado
26/08/2001
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