quarta-feira, 25 de abril de 2012

A crueldade das touradas

A CRUELDADE DAS TOURADAS



Observando as touradas pela televisão, busquei uma explicação para a crueldade humana. Descobri que a crueldade

é epidêmica; as multidões rapidamente se contaminam e, como todos estão doentes, ninguém se acha doente. A

galera, anestesiada pela convicção de cada um de que ninguém ali é mau, olha para a arena ainda vazia e espera

pelo espetáculo de trucidamento.



O touro, naquele contexto o único ser de verdadeira inocência e certamente o único, mesmo, a não afrontar a severa

vontade de Deus, irrompe na arena. E ninguém torce por ele.



O toureiro e os bandarilheiros se apresentam para o massacre. Aquele, de duvidosa elegância em seus borzeguins

e roupa justa, recebe da galera frenéticos aplausos.



Os bandarilheiros inauguram o suplício. A cada bandarilha cravada no pescoço do animal, mais sangue jorra. É a vida

que se escoa sem proveito e sob tortura.



Na defesa instintiva de si próprio, o touro investe contra a capa que o toureiro, herói e deus daquele altar pagão, lhe

agita. Uma, duas, três e mais vezes, até que, exangue, já nem tem como andar na direção dela.



Em delírio, a galera aguarda pelo ato final. Por aquela estocada derradeira que o seu deus e herói dará e que, lá na

consciência coletiva da galera, dos bandarilheiros e do toureiro, confundir-se-á com um gesto de misericórdia. E isto

bastará para que todos se sintam em paz.



Na vida, como nas touradas, há os que se sentem redimidos dos seus erros quando se desconectam da realidade.

Pertencer a uma multidão de qualquer propósito é sempre um risco de acumular erros sem resgate e culpas sem

perdão.



Não se iluda com as grandes platéias, com a presença maciça de público num lugar determinado. A razão se deforma

pela vibração das turbas.



Se houvesse apenas um espectador na praça de touros, esse por certo investiria contra o toureiro e seus auxiliares.



O aprimoramento, a verdade e Deus a gente só encontra na solidão do nosso Eu profundo. É ali que estão os fundamentos

da nossa humanidade e as sementes da alegria saudável; aquela que a gente só vem a sentir quando executa

concretamente as tarefas positivas que existem na Terra, a começar pelas que nos esperam na nossa casa.



Joel Ribeiro do Prado

26/08/2001



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