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O objetivo principal desta carta foi o de chamar a atenção para a questão da propriedade intelectual a
partir da situação precária da Escola de Belas Artes. A partir da folha 6
isto é abordado nesta carta ao Suplicy. O gigantesco intróito era
necessário, considerando as características do senador a quem eu me
dirigia.
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Ilmo. Sr.
Doutor
Eduardo Matarazzo Suplicy
Exmo.
Senador da República Federativa do Brasil
Ref.: CASA-DE-ESPANTOS BRASIL.
Prezado
Senador
Atento aos
acontecimentos, sobretudo àqueles de maior relevância, sei do trabalho denodado
que V.Exa. vem realizando no Senado e cumprimento-o por esse denodo que, aliás,
sempre marcou a sua atuação política. De outra feita, Senador, após lhe levar,
por escrito, o meu sentimento de cidadão, diante dos fatos que fizeram do
governo Collor um momento histórico de grandes perdas e de enorme frustração
para nós todos, tive a surpresa e a honra de receber uma atenciosa resposta de
V.Exa., que embora, como sempre, tendo de multiplicar o seu tempo diante de
tantas e tantas questões que se lhe apresentam, nem por isso deixou-me sem o
seu comentário e o seu estímulo, pelo que apresento-lhe o meu agradecimento.
Senador, grandes
temas continuam polarizando a atenção dos brasileiros. Sem a distração que nos
afastava da reflexão - aquele pega-pega com a inflação, tornando-nos, até os de
vida mais simples, especialistas na arte da produção de dinheiro artificial, a
arte da especulação - parece que, para atenuar um pouco essa monotonia, encontramos um outro modo de
viver emocionantemente: sentados nas cadeirinhas teleféricas em que a televisão
transformou os assentos das nossas salas-de-estar, penetramos
nas trevas dessa
interminável “casa-de-espantos” que é o Brasil -não só o Brasil; porém,
também e lamentavelmente o
Brasil- e vamos
testando o nosso coração diante das figuras macabras que se levantam à
nossa aproximação: dilapidadores
do dinheiro público, empresários
de Deus, fraudadores
da nossa esperança,
policiais-bandidos, incendiários de mendigos, corruptores de crianças,
pregadores do desvirtuamento, traficantes
da impunidade, etc.;
toda a coleção de monstros e monstruosidades que a
ficção deixou que se evadissem para a realidade cotidiana, tornando esta
insuperável por aquela.
Se não há prazer em
termos diante de nós esse quadro, mas já há um vício em tê-lo, pois é esta a
cena dominante - e que se amplia sobre o que houver de positivo, de correto, de
promissor, até porque esse avanço é sustentado pelo modo como o poder da
comunicação de massa é exercido, através
de uma permanente glamurização do lixo de todas as procedências, e a cujo
contato produz-se o apodrecimento de coisas fundamentais como a fantasia
infantil, a energia da juventude e a
esperança dos maduros - se é, Senador Suplicy, esta a cena dominante, será preciso
que outras mãos, capazes de criar e de empreender sobre os valores verdadeiros,
em todas as áreas de atividade, inclusive na da comunicação, unam-se, sob a égide de um programa
governamental inflexível, que vise à descontaminação do ambiente sócio-cultural
do Brasil.
Antes, na
era do seletor mecânico de canais, tínhamos não mais do que cinco ou seis
opções de alguma informação e muito entretenimento, que consultávamos
delicadamente, para não estragar o seletor;
hoje, com o advento da TV a cabo, varremos o Globo através de um
agilíssimo controle remoto e, em instantes, o que fica estragado é o nosso
ânimo. Nessas voltas ao mundo, podemos, aqui e ali, vislumbrar pequenas
trincheiras de resistência à imbecilização; tempos relativamente curtos
a serviço de
uma grande vontade de uns
poucos, que teimam
em tratar a vida
com carinho, os males
com compaixão e a virtude com
entusiasmada gratidão.
Aqui, no
Brasil, que falta nos
fazem criaturas como Manuel
Durães e o seu cast de intérpretes
fantásticos, que foi capaz de dar ao rádio de quatro décadas atrás uma
expressão teatral, de tal refinamento, que fazia da Record uma unanimidade onde
alcançassem as suas ondas nas tardes de sábado e de domingo, a partir das treze
horas, pelo poder polarizador de audiência que a radiofonização classe A dos
romances mais célebres demonstrou ter. Que falta nos fazem e que saudade nos
deixaram artistas como Arrelia! de uma cândida
genialidade humorística; tão verdadeiro em sua grandeza que, se não fôssemos
tão tolos e tão ingratos, pereniza-la-íamos num canto bem aconchegante do nosso
coração e - por quê não?- com ao menos um busto numa praça que se poderia
chamar Do Picadeiro. Que pena que se
foram sem deixar sucessores! Gente singela e elegante, tanto no modo como na
fala, como os apresentadores Homero Silva - já falecido - do Clube Papai Noel, e J. Silvestre (este,
pelo que sei, atuando nos Estados Unidos) de
O céu é o limite e outros programas em que esbanjava a sua
apuradíssima classe.
Os citados são
expoentes de um tempo soterrado sob os escombros da nossa dignidade coletiva,
mas não são os únicos. E, se tivemos tantos e tão imensos obreiros da
comunicação, da cultura e das artes, qual mágica foi capaz de fazê-los
desaparecer e aos seus estilos? trazendo para os lugares deixados vagos um tal
gênero humano que subverteu o gosto popular pela constante chulice do que produz sob o rótulo de comunicação e
de entretenimento. É preciso atentar para o detalhe de que o que chega onde há uma cultura sólida
estabelecida, se for bom, é percebido como tal e agregado a essa cultura,
enriquecendo-a; mas, se é mau, atua apenas como um modismo que é abortado
gradualmente, pois influi apenas sobre os que
daquele lugar não
tiverem ainda uma
personalidade já definida pelos
padrões locais. Quando, porém, o
que é mau
se apresenta num
ambiente de subdesenvolvimento de
toda espécie, como
é o nosso,
onde nada de
maior robustez e de
natureza oposta se
lhe é contraposto, aí
a coisa passa
a modelar mais profundamente
a sociedade; incorpora-se à
pobre cultura ali estabelecida, empobrecendo-a ainda
mais.
Eu já estava com
esta carta pronta quando, ontem à noite, interessei-me em assistir ao Você decide, da Globo. Tratava-se de
uma situação imaginada a partir desse caso dos precatórios, na qual a uma
secretária davam-se três alternativas: a de pedir demissão e calar-se, não
denunciando o patrão envolvido na roubalheira; pedir demissão e denunciá-lo;
compor-se com ele e participar ativamente do esquema. O resultado da consulta à
opinião dos telespectadores mostra uma realidade estarrecedora: a sociedade
precisa de um tratamento de choque para que recupere a sua dignidade, pois
optou maciçamente pela terceira opção. Isto a mim parece um
dado muito significativo do qual podem-se extrair alguns raciocínios:
2. Diante de um
resultado dessa natureza, o promotor da pesquisa e do programa, se
teve a convicção
prévia de que se
tratava de um bom tema para polarizar audiência, se teve discernimento
para isto, estará eticamente
obrigado a aprofundar essa investigação, mas
já aí a serviço de uma recuperação dos valores
positivos que perderam de ponta-a-ponta na contagem dos votos telefônicos;
A Globo, se foi infeliz na escolha da
oportunidade para deflagrar a terceira opção, num momento de tamanha indução
negativa a que estamos todos submetidos, mostrou, mesmo feitos os descontos
aconselháveis uma vez reconhecida a indução, que tendemos a um comportamento
coletivo que vai multiplicar muitas vezes o volume de processos a serem resolvidos na Justiça. A Lei de Gerson, admitida assim, sem
rebuços, pela sociedade, como a que ela aprova para si num Você decide, representa que a nossa Constituição vem sendo picada e
jogada no lixo. Sim, porque o quê, daquilo que nela se define como direito,
sobreviveria entre nós que elegemos como princípio fundamental da nossa vida o de levar vantagem em tudo?
Reputo este
resultado do Você decide digno de
uma reflexão extremamente séria por parte dos que se conservam lúcidos e
sobretudo dos que, além de lúcidos, estão com algum poder nas mãos que lhes
enseje trabalhar contra essa situação, estimular o surgimento de uma vontade
política para que esse combate aconteça e seja eficaz. Não vejo como realizá-lo
para valer, sem o concurso dos veículos de comunicação de massa, já então
direcionados para tanto.
Senador
Suplicy, a TV SENADO apresenta, freqüentemente, um anúncio da
biblioteca dessa Casa, destacando
a qualidade e a quantidade das obras nela existentes, como
a dizer da importância que aí se dá ao patrimônio cultural. Por ter ouvido e
visto tal anúncio repetidas vezes,
acabei por relacioná-lo
com esta visão crítica que acabo de expor a vossa excelência. Tive, então, a idéia de que, havendo no
Senado alguém com a sua sensibilidade e o seu idealismo, este bem que
poderia ser mais do que um gentil leitor deste desabafo, mas
quem sabe o
próprio aliado que, pela lucidez,
pelo carinho com que abraça as
grandes causas e pelos
recursos que o cargo público lhe dá, viabilizasse uma ação sofreadora e
reversiva do quadro atual. Se tanto lhe for possível, Senador,
eu lhe sugeriria que, por exemplo,
procurasse constatar a situação em que se encontram a Escola de Belas Artes e a Biblioteca Nacional da Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Depois de havê-lo feito, o senhor terá uma boa
sugestão de por onde se pode começar um trabalho de soerguimento cultural do
Brasil. Este soerguimento tem de passar pela dignificação de Casas da cultura
como o sãos tais estabelecimentos, hoje instalados em ambientes deteriorados,
sem recursos materiais e humanos, a despeito da abnegação dos que ali operam;
tem de passar por uma reforma dos currículos escolares, desde o pré até o
segundo grau, amoldando-os à necessidade
de dar mais
cedo uma consciência ao
indivíduo e referências de fato úteis à sua correta inserção no planeta, na
família e na sociedade. A escola tem de
se definir segundo as características do País e não continuar sendo uma fábrica
de diplomas que representam que o diplomado sabe o suficiente daquilo que ele
provavelmente nunca vai usar. Eu mesmo, que nunca pensei em atuar em nenhum
campo onde o teorema de Varignon e a extração de raiz quadrada e cúbica fossem
necessários, quase fui reprovado duas vezes por não saber essas coisas importantíssimas na vida. Outros
foram reprovados e alijados desde cedo por não saberem bem os
verbos to be, to have ou ètre. Que falta de compreensão! a
daqueles que decidiram como a escola deveria ser e tem sido...
Senador, se
eu puder ser útil
de algum modo
dentro desses propósitos ou
de outros que se relacionem
com a construção
de um Brasil
mais positivamente brasileiro.,
conte comigo. E obrigado
pela sua sempre muito honrosa atenção.
Cordialmente,
Joel Ribeiro do Prado
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