terça-feira, 1 de maio de 2012

CASA-DE-ESPANTOS BRASIL - Carta ao senador Suplicy


O objetivo principal  desta carta foi  o de chamar a atenção para a  questão da propriedade intelectual a partir da situação precária da Escola de Belas Artes. A partir da folha 6 isto é abordado nesta carta ao Suplicy. O gigantesco intróito era necessário, considerando as características do senador a quem eu me dirigia.
julho 11, 1997




Ilmo. Sr.

Doutor Eduardo Matarazzo Suplicy

Exmo. Senador da República Federativa do Brasil





Ref.: CASA-DE-ESPANTOS BRASIL.



Prezado Senador

                            Atento aos acontecimentos, sobretudo àqueles de maior relevância, sei do trabalho denodado que V.Exa. vem realizando no Senado e cumprimento-o por esse denodo que, aliás, sempre marcou a sua atuação política. De outra feita, Senador, após lhe levar, por escrito, o meu sentimento de cidadão, diante dos fatos que fizeram do governo Collor um momento histórico de grandes perdas e de enorme frustração para nós todos, tive a surpresa e a honra de receber uma atenciosa resposta de V.Exa., que embora, como sempre, tendo de multiplicar o seu tempo diante de tantas e tantas questões que se lhe apresentam, nem por isso deixou-me sem o seu comentário e o seu estímulo, pelo que apresento-lhe o meu agradecimento.



                            Senador, grandes temas continuam polarizando a atenção dos brasileiros. Sem a distração que nos afastava da reflexão - aquele pega-pega com a inflação, tornando-nos, até os de vida mais simples, especialistas na arte da produção de dinheiro artificial, a arte da especulação - parece que, para atenuar um pouco essa monotonia, encontramos um outro modo de viver emocionantemente: sentados nas cadeirinhas teleféricas em que a televisão transformou os assentos das nossas salas-de-estar,   penetramos  nas trevas  dessa interminável  “casa-de-espantos”  que é o Brasil -não só o Brasil;  porém,  também  e   lamentavelmente  o  Brasil-  e  vamos  testando o nosso coração diante das figuras macabras que se levantam à nossa aproximação: dilapidadores   do   dinheiro público,   empresários  de   Deus,   fraudadores  da  nossa esperança, policiais-bandidos, incendiários de mendigos, corruptores de crianças, pregadores  do  desvirtuamento,  traficantes  da  impunidade,  etc.;  toda  a  coleção de monstros e monstruosidades que a ficção deixou que se evadissem para a realidade cotidiana, tornando esta insuperável por aquela.



                            Se não há prazer em termos diante de nós esse quadro, mas já há um vício em tê-lo, pois é esta a cena dominante - e que se amplia sobre o que houver de positivo, de correto, de promissor, até porque esse avanço é sustentado pelo modo como o poder da comunicação de massa  é exercido, através de uma permanente glamurização do lixo de todas as procedências, e a cujo contato produz-se o apodrecimento de coisas fundamentais como a fantasia infantil, a energia da juventude  e a esperança dos maduros - se é, Senador Suplicy, esta a cena dominante, será preciso que outras mãos, capazes de criar e de empreender sobre os valores verdadeiros, em todas as áreas de atividade, inclusive na da comunicação,  unam-se, sob a égide de um programa governamental inflexível, que vise à descontaminação do ambiente sócio-cultural do Brasil.



                                               Antes, na era do seletor mecânico de canais, tínhamos não mais do que cinco ou seis opções de alguma informação e muito entretenimento, que consultávamos delicadamente, para não estragar o seletor;  hoje, com o advento da TV a cabo, varremos o Globo através de um agilíssimo controle remoto e, em instantes, o que fica estragado é o nosso ânimo. Nessas voltas ao mundo, podemos, aqui e ali, vislumbrar pequenas trincheiras de resistência à imbecilização; tempos relativamente  curtos  a  serviço  de  uma  grande vontade de uns poucos,  que  teimam  em tratar  a  vida  com carinho,  os  males  com  compaixão e a virtude com entusiasmada gratidão.   

                           

                               Aqui, no Brasil,  que falta  nos  fazem  criaturas como Manuel Durães e o seu  cast de intérpretes fantásticos, que foi capaz de dar ao rádio de quatro décadas atrás uma expressão teatral, de tal refinamento, que fazia da Record uma unanimidade onde alcançassem as suas ondas nas tardes de sábado e de domingo, a partir das treze horas, pelo poder polarizador de audiência que a radiofonização classe A dos romances mais célebres demonstrou ter. Que falta nos fazem e que saudade nos deixaram artistas como Arrelia! de uma  cândida genialidade humorística; tão verdadeiro em sua grandeza que, se não fôssemos tão tolos e tão ingratos, pereniza-la-íamos num canto bem aconchegante do nosso coração e - por quê não?- com ao menos um busto numa praça que se poderia chamar Do Picadeiro. Que pena que se foram sem deixar sucessores! Gente singela e elegante, tanto no modo como na fala, como os apresentadores Homero Silva - já falecido - do Clube Papai Noel, e J. Silvestre (este, pelo que sei, atuando nos Estados Unidos) de  O céu é o limite  e outros programas em que esbanjava a sua apuradíssima classe.



                            Os citados são expoentes de um tempo soterrado sob os escombros da nossa dignidade coletiva, mas não são os únicos. E, se tivemos tantos e tão imensos obreiros da comunicação, da cultura e das artes, qual mágica foi capaz de fazê-los desaparecer e aos seus estilos? trazendo para os lugares deixados vagos um tal gênero humano que subverteu o gosto popular pela constante chulice  do que produz sob o rótulo de comunicação e de entretenimento. É preciso atentar para o detalhe de que o  que chega onde há uma cultura sólida estabelecida, se for bom, é percebido como tal e agregado a essa cultura, enriquecendo-a; mas, se é mau, atua apenas como um modismo que é abortado gradualmente, pois influi apenas sobre os que  daquele  lugar  não  tiverem  ainda  uma  personalidade  já definida pelos padrões locais.       Quando, porém,  o  que  é  mau  se  apresenta  num  ambiente  de subdesenvolvimento  de  toda   espécie,  como  é  o  nosso,  onde  nada  de  maior robustez  e   de  natureza  oposta  se   lhe   é   contraposto,       a  coisa  passa  a modelar  mais  profundamente  a   sociedade;   incorpora-se   à   pobre   cultura    ali estabelecida, empobrecendo-a ainda mais.



                            Eu já estava com esta carta pronta quando, ontem à noite, interessei-me em assistir ao Você decide, da Globo. Tratava-se de uma situação imaginada a partir desse caso dos precatórios, na qual a uma secretária davam-se três alternativas: a de pedir demissão e calar-se, não denunciando o patrão envolvido na roubalheira; pedir demissão e denunciá-lo; compor-se com ele e participar ativamente do esquema. O resultado da consulta à opinião dos telespectadores mostra uma realidade estarrecedora: a sociedade precisa de um tratamento de choque para que recupere a sua dignidade, pois optou maciçamente pela terceira opção. Isto a mim parece  um  dado muito significativo do qual podem-se extrair alguns raciocínios:



                            1. A terceira opção, oferecida assim, antes de que a CPI conclua o seu trabalho e a Justiça demonstre, como dela se tem reclamado, empenho em fazer a sua parte, não seria essa terceira opção uma imprudência? que se poderia evitar já por isso e também levando-se em conta os limites culturais a que me referi acima, dentro dos quais o que é ruim faz escola e, mais do que isso, faz a escola mais eficiente que temos por aqui, pois tem a seu dispor os recursos técnicos e cênicos que não se emprestam ao que haja de positivo, bom e educativo;

                                     

                            2. Diante de um resultado dessa natureza, o promotor da pesquisa e do programa,   se   teve   a  convicção  prévia   de que  se   tratava de um bom tema para polarizar audiência, se teve discernimento para isto,   estará  eticamente  obrigado a aprofundar essa investigação,   mas     aí a  serviço de uma recuperação dos valores positivos que perderam de ponta-a-ponta na contagem dos votos telefônicos;

                            3. A reforma do judiciário, sem a reforma da escola, sem a reforma da família e sem a reforma da filosofia da comunicação de massa,  vai  dar no quê?



                             A Globo, se foi infeliz na escolha da oportunidade para deflagrar a terceira opção, num momento de tamanha indução negativa a que estamos todos submetidos, mostrou, mesmo feitos os descontos aconselháveis uma vez reconhecida a indução, que tendemos a um comportamento coletivo que vai multiplicar muitas vezes o volume de processos a  serem resolvidos na Justiça. A Lei de Gerson, admitida assim, sem rebuços, pela sociedade, como a que ela aprova para si num Você decide, representa que a nossa Constituição vem sendo picada e jogada no lixo. Sim, porque o quê, daquilo que nela se define como direito, sobreviveria entre nós que elegemos como princípio fundamental  da nossa vida o de levar vantagem em tudo?



                            Reputo este resultado do Você decide digno de uma reflexão extremamente séria por parte dos que se conservam lúcidos e sobretudo dos que, além de lúcidos, estão com algum poder nas mãos que lhes enseje trabalhar contra essa situação, estimular o surgimento de uma vontade política para que esse combate aconteça e seja eficaz. Não vejo como realizá-lo para valer, sem o concurso dos veículos de comunicação de massa, já então direcionados para tanto.



                                               Senador Suplicy,  a TV SENADO  apresenta,  freqüentemente, um anúncio  da  biblioteca dessa Casa, destacando  a qualidade  e  a quantidade das obras nela existentes, como a dizer da importância que aí se dá ao patrimônio cultural. Por ter ouvido e visto tal anúncio repetidas vezes,  acabei  por  relacioná-lo  com esta visão crítica que acabo de expor a vossa excelência.  Tive, então, a idéia de que, havendo no Senado alguém com a sua sensibilidade e o seu idealismo, este bem que poderia  ser   mais do que um gentil leitor deste desabafo,  mas  quem  sabe  o  próprio aliado que,  pela lucidez, pelo carinho com que  abraça  as  grandes causas  e  pelos  recursos que o cargo público lhe dá, viabilizasse uma ação sofreadora e reversiva do quadro atual. Se  tanto  lhe for possível,   Senador,  eu  lhe sugeriria que,  por exemplo,  procurasse constatar a situação em que se encontram a Escola de Belas Artes e a Biblioteca Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois de havê-lo feito, o senhor terá uma boa sugestão de por onde se pode começar um trabalho de soerguimento cultural do Brasil. Este soerguimento tem de passar pela dignificação de Casas da cultura como o sãos tais estabelecimentos, hoje instalados em ambientes deteriorados, sem recursos materiais e humanos, a despeito da abnegação dos que ali operam; tem de passar por uma reforma dos currículos escolares, desde o  pré  até  o  segundo grau,  amoldando-os  à necessidade  de  dar  mais  cedo   uma consciência ao indivíduo e referências de fato úteis à sua correta inserção no planeta, na família e na sociedade.   A escola tem de se definir segundo as características do País e não continuar sendo uma fábrica de diplomas que representam que o diplomado sabe o suficiente daquilo que ele provavelmente nunca vai usar. Eu mesmo, que nunca pensei em atuar em nenhum campo onde o teorema de Varignon e a extração de raiz quadrada e cúbica fossem necessários, quase fui reprovado duas vezes por não saber essas coisas importantíssimas na vida. Outros foram  reprovados  e alijados desde cedo por não saberem bem os verbos to be, to have ou ètre. Que falta de compreensão! a daqueles que decidiram como a escola deveria ser e tem sido...



                            Senador,  se  eu   puder   ser útil  de  algum  modo    dentro  desses propósitos  ou  de  outros  que  se  relacionem  com  a  construção  de  um  Brasil  mais positivamente brasileiro.,  conte comigo.  E  obrigado  pela  sua sempre  muito honrosa atenção.

Cordialmente,



Joel Ribeiro do Prado


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