Os teístas acreditam pelo menos num deus, os politeístas acreditam
em vários deuses, os monoteístas acreditam num único deus, os agnósticos não
sabem se existe ou não um deus ou vários, e, os ateístas não acreditam e nem
existe Deus; há ainda os deístas, os hemoteístas e os monoteístas trinitários,
que são variações dos anteriormente citados; todos têm dogmas, argumentos,
conceitos, explicações e aceitação da morte; verdadeiros ou não, depende
substancialmente do crente e das respectivas crenças. A filosofia trata a morte,
inicialmente, com a preocupação que ela inspira aos humanos. Há pelo menos
quatro diferentes tipos de medo da morte: medo do aniquilamento, medo da punição,
medo do desconhecido e medo do processo de morrer. Eu tenho me esforçado para
assumir e/ou acreditar num ou noutro argumento que se harmonize com a minha
religiosidade e/ou frágil filosofia.
A minha primeira relação com a morte e a com a existência
de Deus foi quando era criança. Meu cachorrinho, o Nico, agonizou diante de mim
por alguns instantes e morreu. Morreu. Pouco mais de meia dúzia de anos não era
o suficiente para compreender o que estava acontecendo... há poucas horas ele brincava
alegremente comigo. Toquei-o, sacudí-o e nada. Estirado no chão, língua de
fora, boca espumada, olhos cerrados, ainda morno, quase sem respiração. Eu o contemplei
demoradamente e sem que eu percebesse saltaram-me dos olhos lagrimas acidas que
embaçavam o contorno do meu frágil amiguinho. Inclinei levemente a cabeça e cheguei-me
mais perto, bem pertinho... Nada! Então intuitivamente comecei a rezar uma
ave-maria rogando a Deus que não permitisse que o Nico morresse; ele tinha sido
um bom cachorro, obediente, acordava-me para ir a escola, nunca tinha mordido ninguém.
Esperei alguns minutos e nada, absolutamente nada. O Nico permanecia inerte. Percebendo
que as minhas preces não era o suficiente, chamei minha irmã Celeste; se pos a
chorar, alardeando aos gritos quintal afora que o Nico morreu. Alice (pouco
mais velha do que a Celeste) aproximou-se e disse-me com os olhos marejados,
palavras tremulas: Morreu, morreu... (voz
embargada) Não tem mais jeito. Vamos
enterrá-lo. Enterrá-lo? Por quê? Enterrá-lo como as arvores? Será que se eu
enterrá-lo, ele renascerá, como as plantas? Ah, então eu entendi: Eu enterro o
Nico e depois de algum tempo, se eu regá-lo direitinho, ele volta a viver. Não, Zé, ele não viverá mais... O Nico vai
para o Céu, disse-me Alice desolada ainda ofegante.
Eu fiz uma cova rasa para que o Nico não fizesse muito
esforço ao levantar-se para subir ao Céu. A Celeste fez uma cruz. Eu, Alice,
Celeste, Tereza e Alberto (irmãzinhos mais novos) de mãos postas, numa
solenidade simples, oramos.
Duas ou três vezes por dia eu visitava a cova, retirava um
pouquinho de terra para ver se o Nico estava lá. Se ainda estava lá ou já havia
ido para o Céu. Na verdade, eu não estava preocupado se ele iria ou não para o Céu,
o que eu realmente queria era que as minhas preces o ressuscitassem. O que iria
ele fazer no Céu? Fiquei confuso e cético. Eu o queria aqui na Terra comigo e
não me importaria em mantê-lo enterrado por algum tempo desde que brotasse como
ele era antes.
Lembro-me, claramente, de estar deitado à noite e imaginar
que nunca mais poderia compartilhar, com o meu amigo, segredos, traquinices
e... Vê-lo novamente. Como poderia eu perder inexplicavelmente aquela criatura
que eu havia acolhido da rua, mesmo contrariando meus pais? Ele veio chegando,
meigo, de rabo abanando, aconchegou-se aos meus pés, virou-se de bruços,
movimentou desordenadamente as patinhas e sorriu pra mim. O Nico sorria só para
mim, para mais ninguém. Foi minha primeira posse. Eu tinha um cachorro só meu.
Não havia pagado nada por ele. Doou-se. E eu? Desastrado proprietário, incapaz
de protegê-lo. Deixei-o morrer, não pude ajudá-lo. Minhas orações, suplicas e promessas
não foram suficientes para que Deus revertesse o processo.
Minha primeira noite de insônia. Sentei-me na varanda e
demoradamente contemplei as estrelas. Via figuras desconexas, como um filme
preto e branco, passeando pela lua cheia, imaginando que seria a parte do Céu
para onde ficariam os mortos. Mas, eu não via meu Nico, nem nada parecido com ele.
Voltei à cova e ele ainda estava lá. Fiquei imaginando o que haveria naqueles
lugares escuros, longínquos e inacessíveis... E por que o mesmo céu durante o
dia era diferente? Para que Deus
precisava de tanto espaço? Para que eu precisaria de todo aquele universo se
era feliz na minha casa, meu quintal, minha cidadezinha... E como poderiam morar
pessoas no Céu?
Luiza, minha irmã mais velha, explicou-me o ciclo dos
seres vivos. Não gostei. Eu iria morrer, minha mãe, meu pai, meus irmãos, meus
amigos, meus passarinhos... Triste desígnio de Deus. Deus? Pensava eu: Deus não
gosta de mim. Por quê? Que todos morressem, se é assim que Ele quer, mas não o
meu cachorrinho, blasfemava. Se Deus inventou a vida, para que inventou a
morte, indagava decepcionado.
Todos os domingos eu era obrigado a ir à missa das 10, e,
por iniciativa própria, permaneci na igreja por mais uma hora. Estava ali silenciosamente sozinho, silencioso,
prostrado, cabisbaixo, ajoelhado, humilhado... Eu não rezei, já havia feito
isso dois dias atrás e não tinha adiantado absolutamente nada. Eu queria falar
com Deus. Expliquei-Lhe da necessidade de ter o Nico vivo, ofereci-Lhe qualquer
sacrifício: abdicaria da minha invejável coleção de figurinhas, da minha
carriola, das bolinhas de gude, soltaria meus passarinhos, iria todos os dias à
escola e faria a lição de casa, trataria bem meus irmãozinhos, primos, amigos,
irmãs; obedeceria incondicionalmente minha mãe. Alias, explicava-me, estou fazendo
a escolinha do padre, prestes para fazer a primeira comunhão, arrebatei
imaginando que esse fosse o melhor dos argumentos. Inútil, talvez Ele tenha me
ouvido, mas não disse nada. E porque Ele não me dizia nada, estava em Sua casa,
pedia tão pouco ou quase nada. Concluí, implacável: Deus não existe! Todos
mentem. Mentem todos para mim. Não existe Céu, nem plantas, nem flores... O
Nico morreu. Não tem mais vida: morreu, morreu, morreu. Acabou!
Coincidentemente no próximo
domingo iria fazer a primeira comunhão. Terninho branco, gravata borboleta,
sapatos novos, o Credo na ponta da língua, nervoso, finalmente chegou a minha
vez de confessar-me. Minhas irmãs zombaram de mim por confessar-me duas vezes,
segundo elas, eu tinha tantos pecados que eu tive usar duas seções; o que elas
não sabiam é que eu esperei todos se confessarem e retornei para pedir ao Padre
Eugenio que ajudasse meu amigo Nico. Premia os dentes para que as lágrimas não
regassem meu rosto, eu não queria que ninguém me visse chorar, enquanto o Padre
oferecia explicações incompreensíveis...
Nas aulas de catecismo
ensinaram-me que a eucaristia é um dos sete
sacramentos; o sacrifício do Corpo e do Sangue do Senhor Jesus, que Ele
instituiu para perpetuar o sacrifício da cruz, confiando assim à sua igreja o
memorial da Sua morte e ressurreição; o sinal da unidade, o vínculo da
caridade, o banquete pascal, em que se recebe Cristo; a alma se enche de graça
e nos é dado o penhor da vida eterna. Ao receber a hóstia não poderia em hipótese alguma
mordê-la, se isso acontecesse, eu ficaria com a boca inundada de sangue; sangue
do corpo do Senhor Jesus Cristo, filho de Deus. Nem Deus, nem Cristo, nem o Padre,
tampouco minhas orações, estavam dispostos a ajudarem-me. Mentiam todos.
Mastiguei a hóstia e “milagrosamente” não aconteceu nada! Vingança? Desespero? Este
ato fez-me, naquela tenra idade, questionar os rituais e dogmas impostos pelo
catolecismo.
Hoje, quase
sexagenário, tenho dois cachorrinhos poodle: o Joey e a Tifany. Freqüentemente
observo essas criaturas que com tão pouco, sem necessidade de Deus, religião ou
filosofia, fazem-me acreditar (insofismavelmente) que usufruem da felicidade.
Talvez a vida nos adestre para a morte e nos esquecemos -
na maioria das vezes - de viver ao vento, na relva, na praia, na calçada, no
quintal... Correr pela vida! Por onde andas Nico, meu desventurado companheiro?
Falaste com Deus? Ou és raiz de algum arbusto?
Miami (em casa), 11 de março de
2007
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