|
São
Paulo, nem tudo mudou...
|
|
|
Olho a foto em
preto e branco e de página inteira, estampada numa edição da revista Manchete
de lá pelos idos de 1953. O tema: os festejos do quarto centenário da cidade
de São Paulo. Acodem-me lembranças de uma terra adolescente. Terra rica,
garbosa, mas ainda adolescente na sua predestinação metropolitana. A página,
assim composta, diante de mim, funciona como um retrovisor. Um retrovisor do
tempo, tendo, em primeiro plano, a imagem de minha mãe e a de minha irmã de
cinco anos. Inteiramente esquecidas de uma sacola deixada encostada no poste
do ponto de ônibus; ponto inicial da linha 103, cujo destino era Santo Amaro,
via Washington Luiz, passando pelo Brooklin onde morávamos. Sobre a sacola,
uma boneca repousava.
O ponto inicial ficava sob o Viaduto do Chá. Naquela hora de meio de tarde, como parte dos festejos do quarto centenário da cidade, ali se exibiam equilibristas alemães, atravessando o Vale do Anhangabaú, passo a passo, num cabo de aço que se estendia lá no alto - talvez a trinta ou quarenta metros de altura - preso a dois arranha-céus ladeiros. Era natural aquele espasmo produzido pelo espetáculo. Aqueles homens estavam inteiramente soltos no ar! Carregavam, presa a ambas as mãos, uma vara de talvez cinco metros, possivelmente de aço, que os auxiliava no equilíbrio. Que saudade! Entre tanta coisa boa que, na esteira das lembranças despertadas pela foto, eu recordei, há o momento apoteótico dos festejos: aquela chuva de prata, feita com folhetinhos triangulares de papel alumínio que aludiam ao IV centenário e traziam o emblema criado para assinalá-lo. Quantos e quantos! Derramados por aviões e tremeluzindo sob o céu vespertino pelo reflexo do sol e, depois, já à noite, pelo dos fachos de potentíssimos holofotes assestados para as alturas. Que festa! Eu, mais do que espectador, tinha sido privilegiado protagonista, cantando São Paulo Quatrocentão, (essa letra tem um equívoco do autor, pois, como quem fazia 400 anos era a cidade e não o Estado, deveria chamar-se São Paulo Quatrocentona) no cinema do bairro, do Caxingui, num show em que também cantaram Moacir Franco e Germano Matias. É, mas esta foto... ela traz no seu bojo uma coisa mais importante do que a recordação mais particular, mais restrita a minha pessoa. Ela traz com muita força um contraste imenso. Tão grande, que parece ser obra não apenas do tempo, mas de algo que o supera de longe na construção deste contraste de realidades. Algo muito mais operante que o tempo, no patrocínio da metamorfose. Sim! Eu me dou conta agora de que mudamos de mundo. Este, o atual, não pode ser aquele mesmo... Não, não pode! Neste, a sacola com a boneca estaria bem segura nas mãos de minha mãe, pouco se importando ela, então, com os equilibristas. Equilibristas? Que bobagem! Coisa sem graça, sem poder de atrair muitas atenções. Afinal, todos nós, os transeuntes atuais destas ruas, vivemos emoções muito mais fortes do que a de ver alguém se equilibrando nas alturas. Todo o arsenal de impactos está agora ao rés do chão. Até equilibristas nos sentimos mais do que aqueles que ficam lá no alto. Os grandes desafios estão aqui embaixo... Ah! E aquele fotógrafo? É, aquele! O que capturou a cena de cinqüenta anos atrás. Se ele passasse agora, caminhando pelo Vale, vindo da Praça da Sé, talvez até nem estivesse mais com a sua máquina... Mas, supondo que ele a tivesse à mão, o que haveria de tão singelo para merecer uma página inteira de uma grande revista? São Paulo, levaram-lhe a garoa, a neblina a deixou... Calaram-se os pregões que alertavam os nossos ouvidos logo cedo: Ropa velha! Ropa velha! Compra ropa velha! No lugar do Salada Paulista, está um Mc Donald`s; no da Leiteria Campo Belo, está a Loja Marisa. Ah, a Campo Belo! Campo Belo da geléia de mocotó em copinhos de vidro - o meu alimento principal nos tempos de lactente - e das gorjetas polpudas de papai, que eu, após ele levantar-se e virar as costas, apanhava quase toda, enfiando as moedas grandonas no bolso e deixando só poucas, pequenininhas, para o pobre do garçom, que devia achar o meu pai um baita pão-duro... As moedas eu pegava para, depois, em casa, ficar brincado de embocar cada uma numa frestinha do rodapé do hall, onde elas entravam para sempre. Outro dia, passando pela Lacerda Franco (Cambuci), vi a casa em que eu morei sendo reformada. Não tive dúvidas, entrei, pra ver se estariam ali as tais moedas. Qual! O assoalho da sala de jantar tinha sido removido e o que havia era um monte de terra. As moedas deviam estar lá no meio, mas fiquei sem jeito de procurar. Conversei um pouco com os pedreiros e me fui, com uma baita vontade de ficar... Pois é, minha querida São Paulo... Emudeceu a matraca do biju - tac-tac-tac-tac-tac - que fazia brotar água na nossa boca. Cessaram para sempre os acordes do realejo, passando nas tardes, a bulir com a nossa ansiedade mais romântica, à qual o piriquitinho lançava pitadas de ingênua esperança. O quase silêncio noturno das suas ruas, só quebrado de quando em quando pelo grito férrico dos bondes em aceleração, não existe mais. Não há mais geléia de mocotó com o sabor daquela, nem na Colombo lá no Rio. E as moedas que eu "roubava" do garçom desapareceram. Quase nem se vê boneca nos braços das meninas... Oh, São Paulo! Tudo está tão diferente... Tudo? Tudo, não! Porque eu amo você do mesmo jeito. |
|
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário